LELES MAGALHÃES
Direito Societário

Holding familiar: incapaz pode ser sócio, decide o STJ

21 de junho de 2026·9 min de leitura·Murilo Leles Magalhães

Por Murilo Leles Magalhães, OAB/SP 370.636 – Leles Magalhães Advogados

O Superior Tribunal de Justiça reconheceu que uma pessoa relativamente incapaz pode figurar como sócia na constituição de sociedade limitada, na modalidade de holding familiar. A 3ª Turma assentou que o artigo 974, § 3º, do Código Civil admite expressamente a participação do incapaz como sócio, desde que respeitadas as salvaguardas legais e obtida prévia autorização judicial.

A decisão interessa ao planejamento patrimonial e sucessório de famílias empresárias. Holdings familiares são hoje instrumento corrente de organização de patrimônio, e a presença de um integrante incapaz no quadro societário costumava travar a estruturação. O STJ retirou esse obstáculo, com balizas claras.

O que o STJ decidiu sobre o incapaz como sócio de holding familiar?

A 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, sob relatoria da ministra Nancy Andrighi, concluiu ser juridicamente admissível que pessoa relativamente incapaz integre, como sócia, sociedade limitada constituída sob a forma de holding familiar. O fundamento é o artigo 974, § 3º, do Código Civil, que prevê de modo expresso essa participação, impondo requisitos ao registro na Junta Comercial.

Vale recompor o caso. Foi ajuizada ação de suprimento de outorga conjugal para suprir a autorização de cônjuge relativamente incapaz, curatelado pela própria esposa, com vistas à integralização de imóveis do casal em uma holding familiar. O casal, em comunhão parcial de bens, pretendia constituir sociedade limitada com cada um titular de metade das cotas, para então doá-las às duas filhas maiores e capazes, com reserva de usufruto vitalício. A finalidade, portanto, era sucessória e patrimonial, não a exploração de atividade empresarial pelo incapaz.

O juízo de primeira instância julgou o pedido improcedente, ao fundamento de que o Código Civil vedaria o exercício de atividade empresarial por incapaz. O Tribunal de origem manteve a sentença. No recurso especial, a esposa sustentou que a lei não impede o incapaz de integrar sociedade após a decretação da incapacidade, contanto que não exerça a administração, que o capital esteja integralizado e que ele seja devidamente representado por curador.

Por que sócio e administrador não se confundem?

Porque o sócio apenas integra o quadro societário, como titular de participações representativas do capital, enquanto a atividade é exercida pela sociedade, e não pelos sócios. A relatora destacou essa distinção: a vedação ao exercício direto de empresa pelo incapaz não alcança a mera titularidade de cotas, que não implica gestão.

A separação é decisiva. Quem administra a sociedade pratica os atos de gestão e responde por eles; quem é sócio detém o investimento e participa dos resultados. Em uma holding familiar bem desenhada, o incapaz figura como cotista, com o capital integralizado e a administração entregue a outro sócio ou a administrador designado, jamais a ele. Nessa configuração, o patrimônio é organizado sem que o incapaz pratique qualquer ato empresarial. A leitura que confunde as duas posições, como observou a relatora, é a que conduz ao indeferimento equivocado.

De acordo com a ministra, o incapaz não pode ser impedido de constituir sociedade diante de disposição legislativa que admite expressamente sua participação em contratos sociais. Não havendo proibição legal à constituição de sociedade limitada por incapaz e, ao contrário, havendo previsão expressa de participação em contratos sociais, deve-se reconhecer a licitude de sua atuação, desde que observadas as salvaguardas legais.

Quais salvaguardas o Código Civil exige para a participação do incapaz?

O artigo 974, § 3º, do Código Civil condiciona a participação do incapaz a três salvaguardas: que ele não exerça a administração da sociedade, que o capital social esteja integralizado e que esteja assistido ou representado, conforme o grau de incapacidade. Soma-se a isso, no caso analisado, a exigência de prévia autorização judicial.

Esses requisitos protegem o incapaz e os terceiros que negociam com a sociedade, sem aniquilar o direito de participação. Em nossa experiência estruturando holdings para famílias empresárias, a observância dessas salvaguardas costuma ser o ponto que separa um arranjo seguro de um contrato social vulnerável a impugnação. A integralização integral do capital, em especial, afasta o risco de o incapaz responder por aportes futuros, e a designação clara do administrador evita confusão entre titularidade e gestão.

Salvaguarda Fundamento Efeito prático na holding
Incapaz não exerce a administraçãoArtigo 974, § 3º, do Código CivilGestão entregue a outro sócio ou administrador designado
Capital social integralizadoArtigo 974, § 3º, do Código CivilAfasta responsabilidade do incapaz por aportes futuros
Representação ou assistência por curadorRegime de curatela e autorização judicialValidade dos atos societários do incapaz

O que muda para o planejamento patrimonial das famílias empresárias?

Muda o leque de soluções disponível quando há um integrante incapaz na família. A decisão confirma que a presença de cônjuge ou herdeiro nessa condição não inviabiliza a holding familiar, desde que estruturada com as salvaguardas legais e a autorização judicial. O planejamento sucessório ganha previsibilidade.

Na prática, abre-se caminho para organizar a transmissão de patrimônio com doação de cotas, reserva de usufruto e cláusulas de proteção, mesmo quando um dos titulares é relativamente incapaz. A ministra ancorou o entendimento em diretrizes do direito brasileiro contemporâneo, que valorizam a inclusão social, a promoção da autonomia e o respeito à dignidade humana. Para o advogado que estrutura esses arranjos, o recado é prático: o artigo 974, § 3º, deve ser lido de forma sistemática, e não restritiva, viabilizando a participação do incapaz no momento da constituição da sociedade.

Quais os próximos passos para quem pretende constituir holding familiar?

Recomenda-se, antes da constituição, avaliar a situação de capacidade de cada integrante, obter a autorização judicial quando houver incapaz, garantir a integralização integral do capital e definir com clareza quem administra. Cláusulas de usufruto, preferência e proteção patrimonial devem ser desenhadas à luz do caso concreto. A decisão do STJ oferece segurança, mas não dispensa estruturação técnica cuidadosa, sob pena de a Junta Comercial recusar o registro ou de o arranjo ser questionado no futuro.

Perguntas frequentes sobre holding familiar e sócio incapaz

Pessoa relativamente incapaz pode ser sócia de holding familiar?

Sim. A 3ª Turma do STJ decidiu que a pessoa relativamente incapaz pode figurar como sócia na constituição de sociedade limitada na forma de holding familiar, com base no artigo 974, § 3º, do Código Civil. A participação é lícita desde que o incapaz não exerça a administração, o capital esteja integralizado, haja representação ou assistência adequada e prévia autorização judicial.

Qual a diferença entre ser sócio e administrar a sociedade?

O sócio é titular de cotas e participa dos resultados, mas não pratica os atos de gestão; a atividade é exercida pela própria sociedade. O administrador é quem conduz os negócios e responde pela gestão. A vedação ao exercício de empresa pelo incapaz alcança a administração, não a simples titularidade de participação societária, o que torna possível sua entrada como cotista.

O incapaz precisa de autorização judicial para entrar na sociedade?

No caso analisado pelo STJ, sim. A participação do cônjuge relativamente incapaz, curatelado, dependeu de prévia autorização judicial, obtida em ação de suprimento de outorga conjugal. A autorização funciona como salvaguarda adicional, ao lado da integralização do capital e da não participação na administração, assegurando que o ato atenda ao interesse do incapaz.

O que é uma holding familiar?

É a estrutura societária criada para concentrar, organizar e administrar o patrimônio e os interesses de uma família. Em geral, os bens são integralizados no capital de uma sociedade, cujas cotas são distribuídas entre os familiares, com cláusulas de governança, sucessão e proteção patrimonial. É instrumento usual de planejamento sucessório, por permitir a transmissão ordenada do patrimônio em vida.

O capital precisa estar integralizado para o incapaz participar?

Sim. A integralização total do capital é uma das salvaguardas do artigo 974, § 3º, do Código Civil. Ela evita que o sócio incapaz seja chamado a realizar aportes futuros, protegendo seu patrimônio. Por isso, ao estruturar a holding com a participação de incapaz, recomenda-se que a integralização seja concluída no próprio ato de constituição, sem subscrição pendente.

A decisão vale para qualquer grau de incapacidade?

A decisão tratou de pessoa relativamente incapaz, com capacidade civil limitada e necessidade de assistência para certos atos. A lógica de distinguir titularidade de cotas e administração tende a orientar situações semelhantes, mas cada caso depende do grau de incapacidade, do regime de curatela e das salvaguardas adotadas. Por isso, a análise individual e a autorização judicial permanecem indispensáveis.

Ao separar a figura do sócio da do administrador, o STJ devolveu às famílias empresárias uma ferramenta que parecia interditada: organizar o patrimônio em holding ainda que um de seus integrantes seja relativamente incapaz, com a participação dele assegurada pelas salvaguardas do artigo 974 e pela autorização do juízo.

Aviso

Este conteúdo é meramente informativo e não constitui aconselhamento jurídico ou tributário. Cada caso demanda análise específica. Para orientação personalizada, consulte um advogado tributarista qualificado.